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A escolha da carreira em tempos de IA

Universidades atualizam currículos enquanto jovens tentam projetar seu futuro em profissões que já estão sendo transformadas pela tecnologia

Por Carol Firmino

23 de outubro de 2026

Escolher uma graduação sempre envolveu incerteza sobre o futuro. Com o avanço da inteligência artificial (IA), porém, quem presta vestibular enfrenta um novo problema: considerar os impactos de uma tecnologia que já está mudando o mercado de trabalho e as atividades de diferentes profissões.

No terceiro trimestre de 2025, quase 30 milhões de brasileiros estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa, o equivalente a 29,6% da população ocupada. Entre os trabalhadores mais jovens, de 14 a 29 anos, a proporção chegava a 35,9%; entre aqueles com ensino superior completo, a 42,7%. Os dados são do estudo Inteligência Artificial e Mercado de Trabalho, elaborado pelos pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) Fernando de Holanda Barbosa Filho, Janaína Feijó e Paulo Peruchetti.

Exposição, entretanto, não significa necessariamente substituição. “Uma coisa é a exposição, outra coisa é a complementaridade. A gente tem que primeiro entender se uma função, um trabalho, um emprego está exposto ou não à IA e, no segundo momento, entender se essa exposição é de caráter complementar ou substitutivo”, explica Janaína, uma das autoras da pesquisa.

Ela acredita que procurar uma carreira que esteja totalmente protegida da tecnologia pode ser algo pouco realista. Para Janaína, o jovem deve buscar uma formação que traga não apenas conhecimento técnico, que pode ficar desatualizado, mas também habilidades como pensamento crítico, iniciativa, trabalho em equipe e adaptação.

CRITÉRIO DE ESCOLHA

“Acho difícil escolher uma profissão hoje sem pensar no impacto que as inteligências artificiais podem ter no mercado de trabalho”, diz Ruan Côrtes da Trindade, de 18 anos, aluno do Colégio Ari de Sá, em Fortaleza (CE). Mesmo assim, na hora de escolher o curso para prestar vestibular, Ruan não abandonou critérios como interesse pessoal e possibilidades de atuação. Ele optou por engenharia química porque gosta da área e vê diferentes caminhos profissionais, o que considera uma vantagem diante das mudanças trazidas pela IA.

Manuela Aquino, de 17 anos, estudante do Colégio COC em Paulínia (SP), pretende seguir a área de ciências agrárias e prestar vestibular para medicina veterinária na Universidade Estadual Paulista (Unesp). Mesmo antes de iniciar a formação, ela já identifica aplicações da IA na área, como o apoio a pesquisas, ao melhoramento genético e à precisão dos exames em animais. Sua maior preocupação, porém, não é perder oportunidades profissionais por conta da tecnologia. “Espero receber uma base para usar as novas ferramentas na profissão”, explica, destacando a importância de aprender a utilizar a IA durante a graduação.

“No caso da IA generativa, o risco é o de alguém aprender a operar essas ferramentas sem ter construído o repertório que permite julgar o que elas produzem”
Maristela Compagnoni Vieira, coordenadora de Graduação da PUCRS Online

Atualização de currículos e regras

Para atender a essas expectativas, as instituições de ensino superior têm procurado se atualizar de diferentes formas. Na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o tema entra por disciplinas específicas, trilhas formativas de maneira transversal nos currículos. O curso de direito, por exemplo, tem uma disciplina obrigatória de IA aplicada e uma trilha que reúne empreendedorismo, inovação jurídica e IA. E a de medicina distribui o assunto em disciplinas como bioética e raciocínio clínico e epidemiológico. “A universidade nunca formou para uma versão de software, porque nenhuma ferramenta específica sobrevive a um ciclo de atuação profissional inteiro. No caso da IA generativa, no entanto, o ponto mais delicado é o risco de alguém aprender a operar essas ferramentas sem ter construído o repertório que permite julgar o que elas produzem”, afirma Maristela Compagnoni Vieira, coordenadora de graduação da PUCRS Online.

Na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), a adaptação ganhou a forma de um percurso integrado aos currículos. O estudante pode obter um certificado de IA da Poli-USP ao cumprir ao menos 24 créditos sobre temas como programação, estatística, ciência de dados, aprendizado de máquina, modelos de linguagem, tomada de decisão e ética. O programa reúne disciplinas obrigatórias, eletivas ou optativas que já integram o currículo de cada habilitação de engenharia, sem constituir uma formação paralela.

Mas não é só na grade curricular que a tecnologia tem mexido. Ela também tem obrigado os professores a rever as formas de avaliação dos alunos. Diretora da Poli-USP, Anna Helena Reali Costa recorre a uma ideia que ouviu entre os colegas docentes para resumir o que está ocorrendo: “A gente muda agora da pedagogia da resposta para a pedagogia da pergunta e da crítica”. Em vez de solicitar apenas a solução de um problema ou a produção de um código, o professor pode pedir que o aluno consulte a IA, compare alternativas, avalie a resposta e explique como chegou ao resultado.

Enzo Koichi Jojima, de 22 anos, ingressou em engenharia de computação na Poli-USP em 2023, quando ainda não imaginava o impacto que a IA teria sobre o mercado de trabalho. Hoje, considera que fez uma boa escolha, especialmente pela formação em fundamentos da engenharia e pela capacidade de resolver problemas complexos. “A IA gera o que você pedir numa velocidade extraordinária, mas alguém precisa saber estruturar o que pedir, verificar se o resultado funciona como esperado e se tem qualidade.”

Além disso, as universidades também começam a estabelecer parâmetros para o uso cotidiano da tecnologia. Na Unesp, foi criado este ano o Guia para a utilização de IA na Graduação, com orientações sobre integridade, transparência, privacidade, vieses, equidade e validação humana.

Mudança no perfil profissional

Enquanto as universidades atualizam suas formações, a IA já modifica atividades profissionais e as competências exigidas pelas empresas. Nas áreas contábil e financeira, por exemplo, a IA já reduz o tempo dedicado a conferência de documentos, organização de dados, identificação de inconsistências e produção de relatórios. Com isso, ganha importância a capacidade de interpretar as informações produzidas.

Para André Fantoni, estrategista tributário e CEO da EcoFiscal, a base de formação oferecida pelas graduações continua indispensável para levar ao mercado um profissional capaz de formular boas perguntas, avaliar resultados e tomar decisões. Ele prevê que o profissional mais valorizado será aquele capaz de combinar conhecimento técnico, tecnologia, visão de negócio e responsabilidade. “Automatizar uma tarefa não significa automatizar a responsabilidade sobre ela”, conclui.

Tiago Queiroz/Estadão Blue Studio
Enzo Jojima valoriza os fundamentos da engenharia para trabalhar com IA

IA no mercado de trabalho

29,6% dos trabalhadores brasileiros estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa no terceiro trimestre de 2025, o equivalente a quase 30 milhões de pessoas

35,9% entre os trabalhadores de 14 a 29 anos

42,7% entre os profissionais com ensino superior completo

Exposição à IA não significa necessariamente substituição: a tecnologia pode assumir determinadas tarefas ou complementar o trabalho humano.

Fonte: Inteligência Artificial e Mercado de Trabalho, FGV IBRE, 2026.

A faculdade está preparada para a IA?

Critérios para avaliar como o curso prepara os estudantes para o uso da inteligência artificial na profissão

1. Formação além das ferramentas
Verifique se o curso desenvolve conhecimentos fundamentais da profissão, além do uso de tecnologias específicas.

2. Atualização curricular
Procure saber se a instituição acompanha as mudanças na área profissional e incorpora novos conhecimentos à formação.

3. Pensamento crítico
Avalie se as atividades propostas exigem que os estudantes analisem informações e desenvolvam soluções próprias, sem depender das respostas prontas das ferramentas.

4. Uso responsável da IA
Informe-se sobre as orientações da instituição para o uso da IA, incluindo questões de privacidade e confiabilidade das informações, além dos cuidados éticos envolvidos.

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