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O desafio do primeiro ano

Dificuldades acadêmicas e financeiras contribuem para a evasão nos primeiros semestres; instituições oferecem programas de apoio

Por Amanda Nonato

23 de outubro de 2026

No Brasil, um em cada quatro estudantes que ingressam em cursos de bacharelado abandona o ensino superior após o primeiro ano, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A evasão também é mais elevada na educação a distância (EaD) do que nos cursos presenciais, chegando a mais de 40%, conforme dados do Instituto Semesp. Fatores acadêmicos, como lacunas de aprendizagem, podem se somar a questões financeiras, familiares e até à falta de vínculo com colegas. “A evasão raramente decorre de uma única causa”, afirma Priscila Claro, diretora de graduação do Insper, em São Paulo.

As dificuldades financeiras e a necessidade de conciliar trabalho e estudo fizeram parte da experiência de Thales Carvalho, 32 anos, hoje aluno de ciência de dados na modalidade EaD da Universidade Cruzeiro do Sul, em Resende (RJ). Em 2014, ele havia ingressado em outro curso, mas abandonou os estudos ainda no primeiro semestre. “Na época, eu trabalhava e estudava design gráfico, em Volta Redonda. Eram quase duas horas de ônibus entre ida e volta, além dos gastos com mensalidade, transporte e materiais. Chegou um momento em que ficou pesado e eu precisei escolher. Hoje, com outro foco profissional, faço ciência de dados EaD, que consigo encaixar melhor na minha rotina”, conta o estudante.

A pró-reitora de graduação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Mônica Alonso Cotta, confirma que a experiência de conciliar estudo, trabalho, deslocamento e questões financeiras aparece entre os desafios das instituições para manter seus alunos, especialmente no início da graduação. Para ela, o ingresso no ensino superior também exige maior autonomia e adaptação às novas demandas acadêmicas. “É nesse período que o aluno começa a confrontar as expectativas formadas antes do ingresso com a experiência concreta do curso escolhido.”

Esses desafios costumam aparecer logo nos primeiros meses, o que torna o início da graduação um período decisivo para a permanência estudantil. Ao olhar para quem conclui os cursos, o mesmo estudo da OCDE aponta que só 49% dos brasileiros que entraram num bacharelado no período analisado terminaram sua formação até três anos após o prazo previsto para a conclusão do curso; na média da OCDE esse mesmo índice chega a 70%.

Ações para retenção

Como na maior parte das instituições, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) a maior concentração de abandono está no primeiro ano dos cursos. “De acordo com nossos dados mais recentes, os principais fatores que pesam na permanência dos estudantes são as dificuldades com moradia e transporte. A ampliação dos auxílios estudantis, por meio de bolsas, apoio financeiro para alunos de baixa renda e refeições a preços acessíveis nos restaurantes universitários, está entre as medidas com melhores resultados para evitar a evasão”, afirma Nádya Pesce da Silveira, pró-reitora de graduação.

Já para lidar com as dificuldades acadêmicas iniciais dos calouros, a instituição investe na oferta de atividades preparatórias, que reforçam o conhecimento dos estudantes especialmente em áreas como cálculo, química e física. O “reforço acadêmico” está longe de ser uma exclusividade da UFRGS. Lacunas de conhecimento trazidas do ensino médio podem levar a reprovações nos primeiros semestres da graduação, contribuindo também para a evasão.

Para enfrentar essas dificuldades, muitas instituições oferecem programas de apoio. Na Unicamp, o Rumo ao Cálculo permite revisar conteúdos de matemática, enquanto tutorias ajudam em disciplinas como língua portuguesa e química. No Insper, o Programa de Mentoria tem função parecida. “Desde a implementação do programa, observamos uma redução dos casos de segunda reprovação na mesma disciplina e dos desligamentos por desempenho”, afirma Priscila. A diretora de graduação do Insper ressalta que não é possível atribuir o resultado exclusivamente à mentoria, mas considera que o programa foi um dos fatores determinantes para essa evolução.

“A evasão raramente decorre de uma única causa”
Priscila Claro, diretora de graduação do Insper

Escolha consciente

As universidades estão buscando formas de reduzir a evasão, mas o risco de abandono também pode diminuir com uma escolha de curso mais consciente. “É importante buscar informações sobre o projeto pedagógico do curso, a estrutura curricular e as políticas, programas e projetos que a instituição oferece para apoiar a permanência e a formação com qualidade”, orienta Ana Maria de Albuquerque Moreira, professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB). Ela recomenda ainda planejar o tempo necessário para aulas, atividades e estudos, orientação que ganha mais importância para quem pretende trabalhar durante a graduação.

Outro ponto que não dá para ficar de lado é a questão financeira. Junto dos pais, os vestibulandos devem fazer um planejamento financeiro para avaliar se os custos da graduação cabem no orçamento familiar. Além da mensalidade para as faculdades privadas, é preciso considerar outros gastos, como transporte, alimentação, materiais e eventual moradia em outra cidade.

Em relação ao curso em si, além de investigar o currículo, é bom saber mais sobre a metodologia de ensino e avaliação, ter detalhes da carga horária, das atividades extraclasse e das possibilidades de atuação profissional após obter o diploma.

Priscila Claro explica que uma visita à instituição de ensino de interesse do vestibulando pode ajudar a conseguir essas informações, inclusive em conversas com estudantes e professores. E lembra: “Uma escolha informada não elimina todos os riscos de evasão, mas reduz a distância entre expectativa e realidade.”

Até a conclusão do curso

49% dos ingressantes em bacharelados no Brasil concluem a graduação até três anos depois do prazo previsto

70% é a média dos países da OCDE para o mesmo indicador

Fonte: Education at a Glance 2025, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

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