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Conflitos são parte do desenvolvimento infantil

Mediação dos adultos precisa orientar as crianças a lidar com frustrações e limites

25 de setembro de 2026

Por Ana Beatriz Paiva

Uma disputa por um brinquedo. Um empurrão durante a brincadeira. Uma mordida. Situações como essas costumam preocupar famílias de crianças pequenas e levantar dúvidas sobre o que é esperado no desenvolvimento infantil e o que merece atenção.

Embora desconfortáveis, os desentendimentos fazem parte do processo de socialização e podem se transformar em oportunidades de aprendizagem quando mediados de forma adequada pelos adultos. “Nessa fase, os pequenos estão aprendendo a esperar a vez, lidar com frustrações e expressar sentimentos. As situações de conflito na educação infantil são comuns e fazem parte do desenvolvimento”, explica Juliana Guerra, coordenadora pedagógica de Educação Infantil do Colégio Pensi, no Rio de Janeiro (RJ).

Na primeira infância, habilidades como comunicação e controle dos impulsos ainda estão em formação. Por isso, um empurrão ou uma mordida podem ser formas de expressar necessidades que a criança não consegue colocar em palavras.

Habilidades como comunicação, negociação e respeito aos limites são construídas à medida que a criança aprende a reconhecer as próprias emoções. Ao serem desenvolvidas, abrem espaço para outras formas de enfrentar os problemas. “Nomear emoções não elimina os conflitos, mas amplia a capacidade de responder a eles de forma menos impulsiva”, explica Ana Lídia Zerbinatti, especialista em Soluções Educacionais da Arco Educação.

“Nessa fase, os pequenos estão aprendendo a esperar a vez, lidar com frustrações e expressar sentimentos”

Juliana Guerra,
coordenadora pedagógica de Educação Infantil do Colégio Pensi

Mediação traz aprendizado
Para Edson Tupinaé, orientador educacional do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Rio de Janeiro, a mediação dos adultos exige um olhar atento para todas as crianças envolvidas. “Nesse processo, as crianças podem se machucar e é fundamental que os adultos estejam por perto para acolher o sofrimento, tanto de quem ‘apanha’ quanto de quem ‘bate’.”
A mediação permite que as crianças desenvolvam habilidades de convivência. Na educação infantil, o papel dos educadores não é identificar “culpados”, mas compreender o que aconteceu, garantir a segurança das crianças e ajudá-las a construir formas mais saudáveis de convivência.

Como os pais podem agir
O primeiro passo é acolher o que for dito pela criança, mas sem buscar respostas precisas ou fazer julgamentos. “Quando o filho chega em casa contando sobre algum desentendimento na escola, é importante que o adulto escute com atenção, oferecendo um espaço seguro para que a criança possa se expressar”, orienta Daniela Prado, coordenadora pedagógica da Educação Infantil do Colégio Anglo Morumbi, em São Paulo (SP). Ela recomenda fazer perguntas abertas, que ajudem a criança a reconstruir o que aconteceu.

Se houver necessidade de aprofundar a conversa, a orientação é recorrer à escola, e não buscar diretamente a família da outra criança. Evitar rotular colegas a partir do relato dos filhos também é importante. Como explica Lilian Murad Bruner, diretora de Educação Infantil do Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, o ambiente escolar conta com especialistas em desenvolvimento humano que podem intervir de forma cuidadosa e ética nessas situações.

Um dos pontos importantes de se observar é se os episódios estão se tornando recorrentes e provocando sofrimento. Mesmo nesses contextos, Meire Nocito, diretora institucional educacional do Porto Seguro, recomenda cautela ao falar em bullying na primeira infância. “Nessa fase, a criança não apresenta condições de planejar ações sistemáticas de agressões físicas ou verbais, com o intuito de causar danos aos outros.”

Com professores e famílias trabalhando próximos, circunstâncias a princípio desagradáveis podem acabar servindo como um grande aprendizado. “O conflito ensina que o mundo é um espaço compartilhado. E isso não acontece sem dor”, resume Tupinaé.

Conflitos infantis: o que observar

Saiba diferenciar situações comuns nessa fase daquelas que precisam de acompanhamento mais próximo

Podem acontecer nessa fase
• Conflitos ocasionais por brinquedos, espaço ou regras das brincadeiras
• Empurrões, mordidas ou choros ligados a frustrações
• A criança consegue retomar a convivência após a mediação dos adultos
• A criança amplia as formas de se expressar e lidar com a frustração

Merecem atenção
• Situações repetitivas envolvendo sempre a mesma criança
• Agressões intencionais que provocam sofrimento ou isolamento
• A criança evita a escola ou apresenta mudanças de comportamento
• Os conflitos continuam se repetindo mesmo após as intervenções da escola e da família

Foto: Pexels

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