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Por Juliana Gottardi
Em 2026, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) registrou mais de 5 milhões de inscritos. O número dá a dimensão do contingente de estudantes que buscam uma vaga em instituições públicas e privadas de ensino superior. A concorrência no Enem e em outros vestibulares assusta e transforma o ano de transição entre o ensino médio e o ensino superior em um período de alta ansiedade.
Essa tensão toda afeta o vestibulando e sua família, mesmo que de formas diferentes. “O vestibular não significa a mesma coisa para todas as famílias. O papel dos pais nesse processo depende das condições, da trajetória e da realidade de cada uma delas”, diz João Eduardo Quadros, mestre em Educação.
A influência da família sobre a trajetória educacional dos filhos é construída ao longo de toda a vida escolar e está relacionada a diversos fatores, como a escolaridade dos pais, que tem forte impacto no desempenho acadêmico dos filhos. A participação da família também pode contribuir para criar um ambiente propício à aprendizagem e ao planejamento do futuro, inclusive na escolha do curso e da instituição de ensino, mas a forma como esse apoio acontece está relacionada às condições socioeconômicas de cada família.
Pressão interna e externa
Psicóloga e mãe de duas filhas adolescentes, Michele Archanjo conta que a maior dificuldade tem sido ajudá-las a lidar com a pressão externa e interna: “Vivemos em uma sociedade que muitas vezes associa desempenho acadêmico ao valor pessoal, o que pode gerar muita ansiedade. O desafio é mostrar que dedicação é importante, mas que a saúde mental e o bem-estar precisam ser preservados ao longo do caminho”. Uma das filhas de Michele, Luma de Paula, de 16 anos e estudante do segundo ano do ensino médio em Ribeirão Preto (SP), conta que esse apoio faz com que se sinta acolhida: “Meus pais entraram nessa preparação para vestibular comigo e eu nunca me senti pressionada a seguir algo que eles queriam. Tudo é muito no meu tempo”.
Um dos desafios para os pais nessa fase é manter o acompanhamento escolar, sem fazer cobranças exageradas. Marlene Isepi, orientadora pedagógico-educacional do ensino médio na Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), orienta as famílias a construir uma relação de confiança, sem julgamentos, e a escolher os momentos certos, fora de situações de tensão, para iniciar os diálogos. “Se a família só conversa quando há problemas, o adolescente tende a se fechar justamente quando mais precisa de apoio. É preciso construir conversas sobre diferentes assuntos para que, quando surgir uma dificuldade, o diálogo aconteça de forma natural.”
Para Manoel Resende Neto, coordenador educacional de ensino médio do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo (SP), não adianta a escola dar orientações contrárias às dos responsáveis, pois isso só traz mais insegurança para os jovens. “A orientação educacional muitas vezes identifica questões que a família ainda não percebeu. Quando essa informação é compartilhada com cuidado, escola e pais conseguem agir juntos em favor do estudante.”
“Às vezes, a família projeta expectativas baseadas na própria trajetória”
Manoel Resende Neto,
coordenador educacional de ensino médio do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo (SP)
Além das provas, as escolhas
Além da preparação para as provas, o ano de vestibular também passa pela escolha de uma carreira e das instituições de ensino. Para os pais participarem dessa tomada de decisão, Neto aconselha que as famílias sejam aliadas dos filhos na escolha: “O projeto de vida é do estudante, não dos pais. Às vezes, a família projeta expectativas baseadas na própria trajetória, mas elas nem sempre estão alinhadas ao que o jovem deseja para a vida”.
Neto recomenda que os pais conversem sobre os cursos e as instituições que os filhos têm em mente e participem da busca por informações, inclusive em visitas e conversas com universitários. Outro ponto a ser considerado é o planejamento financeiro, pois “não adianta criar uma expectativa que depois não cabe no orçamento da família”, lembra.
No dia da prova, os pais podem cuidar de questões práticas que o estudante nem sempre percebe, como conferir os documentos e organizar a logística, incluindo trajeto e alimentação. Para Marlene, o estudante precisa chegar à prova preocupado apenas em fazer o exame. O restante pode ser organizado pela família para reduzir a ansiedade.
Como resume Michele, “o vestibular passa, mas a forma como a família vive esse momento pode fortalecer ou fragilizar seus vínculos”.
Decifrando os termos do vestibulando
Enem
Exame Nacional do Ensino Médio, usado para avaliar o desempenho dos estudantes e como forma de ingresso em instituições públicas e privadas de ensino superior.Sisu
Sistema de Seleção Unificada que reúne vagas em instituições públicas de ensino superior com base na nota do Enem para classificar os estudantes.Prouni
Programa Universidade para Todos, que oferece bolsas de estudo em instituições privadas, também com base na nota do Enem, para estudantes que atendem aos critérios socioeconômicos do programa.Fies
Fundo de Financiamento Estudantil, outro programa do governo federal que financia cursos de graduação em instituições privadas. Não é uma bolsa, mas um financiamento que precisa ser pago pelo estudante depois.Treineiro
Estudante que faz o Enem ou um vestibular apenas para testar conhecimentos, sem concorrer a uma vaga, normalmente quando ainda não está no último ano do ensino médio.Nota de corte
Nota mínima necessária para permanecer na disputa por uma vaga em determinado curso ou instituição.Ações afirmativas
Políticas públicas, como o sistema de cotas, que ampliam o acesso ao ensino superior para grupos historicamente sub-representados nesse nível de ensino.TRI
Teoria de Resposta ao Item, método utilizado na correção do Enem que considera não apenas o número de acertos, mas também a coerência das respostas e a dificuldade das questões.
Foto: Gemini