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Por Carol Firmino
Um dos papéis importantes da escola sempre foi o de ensinar os alunos a buscar informação. Agora, diante de ferramentas de inteligência artificial (IA) capazes não só de fazer isso em segundos, mas também de apresentar para os estudantes soluções prontas para resolver vários problemas, essa função ganhou maior complexidade. “A IA muda o que ensinar, como ensinar e, mais do que isso, o que avaliar”, diz Sabrina Gonçalves, especialista em gestão de tecnologias educacionais.
Esse novo cenário levou o Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão que assessora o Ministério da Educação (MEC), a apresentar uma série de diretrizes para orientar as escolas de todo o País em relação ao uso da IA. Em vez de recomendar a proibição ou liberação indiscriminada da tecnologia, o documento propõe que sua adoção seja analisada de acordo com o nível de risco associado a cada uso. O resultado foi a criação de uma espécie de “semáforo” que ajuda gestores escolares, professores e pais a identificar as aplicações da tecnologia que apoiam o ensino, as que exigem cautela e as que não devem fazer parte do processo educativo.
Os três níveis de risco partem de um princípio, quanto maior o impacto da IA sobre a aprendizagem e a trajetória do estudante, maior deve ser a supervisão humana. Entender como essa escala funciona na prática ajuda os pais a verificar se a escola onde os filhos estudam está adotando as melhores práticas no uso da tecnologia.
1. SINAL VERDE
Risco baixo no apoio às atividades do dia a dia
No primeiro nível do semáforo, estão aplicações como revisão de textos, organização de cronogramas, estruturação de pesquisas e apoio ao planejamento pedagógico. São usos em que a inteligência artificial ajuda a otimizar tarefas rotineiras, sem substituir a atuação do professor nem a produção intelectual do estudante.
No colégio Vera Cruz, em São Paulo (SP), esses recursos já são utilizados. “São aplicações que vemos com bastante potencial. A IA pode ajudar os alunos a revisar textos, organizar cronogramas de estudo, estruturar pesquisas ou reunir informações de forma mais eficiente”, explica o diretor pedagógico Daniel Helene.
No Colégio Progresso Bilíngue, em Indaiatuba (SP), a IA também apoia o planejamento das aulas e a organização dos estudos. Para Carla Mitsy, coordenadora pedagógica dos anos finais do ensino fundamental, esse tipo de aplicação permite que professores e estudantes dediquem mais tempo às atividades pedagógicas: “Esses recursos ajudam professores a ganhar tempo no planejamento e permitem que os alunos aprimorem seus textos e organizem melhor seus estudos. Assim, sobra mais espaço para experiências de aprendizagem significativas e para o acompanhamento individual”.
2. SINAL AMARELO
Risco moderado, quando a IA participa da aprendizagem
Se no risco baixo a IA apoia atividades operacionais, neste nível ela passa a integrar o próprio processo de ensino e aprendizagem. O parecer do CNE enquadra nessa categoria aplicações como assistentes virtuais, tutorias e ferramentas que ajudam na produção de conteúdo. Por terem impacto direto na formação dos estudantes, esses usos exigem acompanhamento permanente dos professores.
No Vera Cruz, essa discussão ganhou espaço em um projeto desenvolvido com estudantes do 9º ano do ensino fundamental. Durante a produção de artigos científicos, os alunos utilizam IA para localizar bibliografia, apoiar a leitura dos materiais, revisar aspectos gramaticais e organizar as conclusões. Mas, ao entregarem o trabalho, eles precisam informar como recorreram à ferramenta. “Essa é a principal fronteira da investigação pedagógica sobre a IA na educação”, diz Helene. Segundo ele, o principal cuidado é garantir que o professor continue sendo o mediador do processo.
Essa preocupação também orienta iniciativas do Pueri Domus, em São Paulo (SP). No colégio, a IA é utilizada como ferramenta de apoio em projetos de aprendizagem e inovação, sempre associada ao desenvolvimento de competências, como pensamento crítico, criatividade e resolução de problemas. Um exemplo é a participação de estudantes no Onward Brazil Scholars, programa realizado em parceria com a Universidade Harvard, que utiliza a IA como apoio ao desenvolvimento de projetos de empreendedorismo e inovação. “Nosso objetivo não é formar jovens que apenas saibam utilizar inteligência artificial, mas pessoas capazes de liderá-la com consciência, responsabilidade e propósito”, afirma Deivis Pothin, diretor-geral da escola.
3. SINAL VERMELHO
Risco alto na tomada de decisões sobre os estudantes
No nível de maior risco, o parecer do CNE reúne usos em que a inteligência artificial pode influenciar diretamente na trajetória dos estudantes, como avaliações definitivas ou decisões pedagógicas.
Nesses casos, a orientação é que a tecnologia não substitua o julgamento dos educadores nem assuma responsabilidades que exigem análise humana.
No Instituto GayLussac, em Niterói (RJ), a diretora-geral Luiza Sassi defende que a IA pode contribuir para a análise de dados educacionais, mas não para avaliar os estudantes: “Há ainda uma fragilidade teórica na IA. Desse modo, o rigor acadêmico deve permanecer sob responsabilidade dos seres humanos, porque há na avaliação escolar elementos subjetivos relacionados à construção do conhecimento”. Segundo ela, informações produzidas pela tecnologia podem ajudar a analisar o nível de proficiência das turmas, mas devem permanecer no campo da análise de resultados, e não servir para avaliações definitivas do estudante.
Na Solar Meninos de Luz, instituição filantrópica de educação básica localizada no Rio de Janeiro (RJ), o entendimento é semelhante. A tecnologia pode apoiar o trabalho pedagógico, mas não substituir o olhar do professor sobre o percurso de aprendizagem. “Cada estudante tem uma história, um contexto e um ritmo de aprendizagem que a IA, sozinha, não consegue compreender”, reforça Hermom Tangarife, diretor de Tecnologia e Infraestrutura da instituição.
Cinco perguntas para avaliar como a escola usa IA
1.A IA faz parte do projeto pedagógico?
A escola explica por que usa a tecnologia e em quais atividades ela aparece. Também deixa claro o objetivo desse uso.2. Como os professores são preparados?
Observar se os docentes recebem formação para orientar os alunos e estabelecer limites para o uso da tecnologia.3. Quais são as regras para o uso da IA?
A escola informa o que é permitido e como o uso da IA deve ser identificado. Também estabelece critérios para uso ético e proteção de dados.4. Quem toma as decisões pedagógicas?
Verificar se avaliações e aprovação continuam sob responsabilidade dos professores. A IA não deve decidir sozinha.5. Como a IA é usada na aprendizagem?
Observar se a tecnologia contribui para o trabalho dos alunos, e não apenas para automatizar tarefas ou gerar respostas prontas.
No Brasil, 37% das escolas permitem que os alunos usem ferramentas de IA em atividades educacionais
Por rede de ensino:
47% Estadual
35% Municipal
31% Particular
Por etapa de ensino:
52% Até o ensino médio
26% Início do ensino fundamental
42% Final do ensino fundamental
Fonte: TIC Educação 2025, Cetic.br.
Foto: Gemini