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IA é aprovada em sala de aula

Projetos em escolas públicas e privadas mostram usos pedagógicos da tecnologia, mas especialistas defendem formação crítica e ética

26 de setembro de 2025

Por Lisandra Matias e Patrícia Giuffrida

O avanço e a popularização de ferramentas de inteligência artificial (IA) têm desafiado as escolas a repensar suas práticas, avaliações e o próprio papel do professor. Se, por um lado, a IA amplia o acesso à informação e permite a personalização do ensino, por outro, é preciso formar educadores e estudantes para essa nova realidade e para o uso crítico e ético desses recursos. “A chegada da inteligência artificial generativa ao ambiente escolar representa mais do que uma inovação tecnológica – ela nos convida a uma mudança de paradigma”, diz Sara Hughes, uma das autoras do livro A Escola com Inteligência Artificial Generativa e diretora da escola FourC Bilingual Academy, em Bauru (SP).

Ela explica que a IA pode apoiar professores em tarefas administrativas, avaliações e diagnósticos, liberando tempo para focar a escuta, o acolhimento e a mediação do processo de aprendizagem. Além disso, desde que usadas com propósitos pedagógicos, responsabilidade, ética e orientação adequada, essas ferramentas ajudam a estimular a criatividade, a curiosidade e o pensamento crítico dos estudantes. Assim, podem ser aliadas para enriquecer projetos interdisciplinares, resolver problemas e preparar os alunos para um futuro cada vez mais digital.

Exemplos inspiradores
É com esse objetivo que o Colégio Farroupilha, em Porto Alegre (RS), trabalha a IA como conteúdo transversal. O projeto Entre Linhas e Códigos: Construindo Argumentos na Era da IA, desenvolvido com estudantes do 8º ano do ensino fundamental, nasceu a partir do filme Extraordinário (2017), do diretor Stephen Chbosky. A história parte dos desafios de um menino que tem uma deformidade facial e começa a frequentar uma escola regular.

Na primeira fase do projeto, os alunos se dividiram em grupos para fazer críticas favoráveis ou negativas ao filme e defender seus argumentos sem o uso de IA. Em seguida, recorreram à tecnologia como ferramenta de reflexão e aprimoramento para trabalhar as suas considerações originais.

Agora no segundo semestre de 2025, uma nova disciplina eletiva está sendo oferecida para o ensino médio: IA e Ino­vação: Criando o Amanhã, que abordará o que é IA e seu impacto na sociedade. “Os alunos vão experimentar ferramentas populares como o ChatGPT, o DALL-E e o Canva AI, e serão incentivados a criar conteúdos diversos — histórias, imagens, mapas mentais, vídeos e jogos — com o apoio da IA”, diz Marícia Ferri, diretora-geral do colégio. “Paralelamente, o curso promove a reflexão sobre os limites éticos do uso dessas tecnologias, a cidadania digital e as novas possibilidades profissionais que surgem com a evolução dessa tecnologia. O percurso culmina na elaboração de um projeto autoral, que integra criatividade e responsabilidade no uso dessas ferramentas”, completa.

No Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, o uso da IA é trabalhado com os alunos do 2º ano do ensino fundamental até o 1º ano do ensino médio. Os conteúdos incluem desde o desenvolvimento do pensamento computacional até a criação de prompts e o uso consciente de ferramentas baseadas em IA generativa. “Um projeto de destaque é o Suicide Analytics for Counter Incidence Saci, idealizado por alunos com apoio da equipe docente. Utilizando machine learning, o projeto investiga correlações entre fatores socioeconômicos e taxas de suicídio globais, resultando em visualizações interativas e insights relevantes”, diz Alessandra Buriti, coordenadora de educação digital da unidade Morumbi do colégio.

Piauí vira referência em IA

Desde 2024, o Piauí implantou obrigatoriamente a disciplina de Inteligência Artificial em todas as escolas da rede pública estadual. Ela está presente no currículo dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental até o 3º ano do ensino médio.

Esse pioneirismo, reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), foi possível graças a uma série de parcerias estratégicas. Instituições de ensino superior como a Unipampa, UFRGS e IFFarroupilha desenvolveram o currículo e a formação inicial dos professores.

A valorização do tema levou mais de 99 mil alunos piauienses a se inscreverem na Olimpíada Nacional de IA no ano passado e começa a gerar novos conhecimentos para a região. Na escola CETI Paulo Freire, em Guaribas, a mais de 650 km de Teresina, alunos desenvolveram um protótipo de aplicativo que recomenda sementes para agricultores familiares a partir de dados sobre solo, clima e tipo de cultivo. “Os estudantes aplicam na prática os conhecimentos adquiridos nas aulas de IA, criando soluções que dialogam diretamente com a realidade da comunidade”, diz Amanda Sousa, professora da instituição.

Formação dos professores em foco

Formar os professores é condição essencial para que a inteligência artificial (IA) avance nas escolas. No Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, desde 2024 todas as unidades contam com um programa específico de capacitação docente em IA. A iniciativa inclui workshops com simulações, exemplos práticos e debates sobre os aspectos éticos do uso da tecnologia, além da produção de materiais de apoio, como roteiros de aula, tutoriais e guias para o uso responsável. A formação continuada também foi incorporada ao calendário pedagógico, estimulando trocas entre professores de diferentes áreas do conhecimento.

“A Ulli, nossa assistente virtual, atua como parceira do educador, apoiando desde a criação de aulas até a análise de dados”
Marcos Raggazzi, diretor executivo das unidades escolares do Bernoulli

Essa qualificação também é prioridade nos colégios da rede Bernoulli, com unidades em Belo Horizonte (MG), Nova Lima (MG) e Salvador (BA). Um dos principais projetos é a assistente virtual Ulli, integrada à plataforma Meu Bernoulli (MB), que conecta alunos, professores, gestores e famílias em um único ambiente virtual. “A Ulli atua como uma parceira do educador, apoiando a criação de aulas, a elaboração de questões, o planejamento e a análise de dados. Para os estudantes, funciona como uma ferramenta de aprofundamento e pesquisa, sempre com supervisão docente”, aponta Marcos Raggazzi, diretor execu­tivo das unidades escolares do Bernoulli. Todos os professores da instituição ainda têm acesso à plataforma de formação continuada, a BAcademy, que disponibiliza cursos de formação de nível básico, intermediário e avançado em IA.

Processo educativo
Os muitos exemplos positivos na exploração da nova tecnologia não escondem, porém, que ainda há riscos que não podem ser ignorados. “Um deles é o uso superficial ou passivo da tecnologia, que pode reduzir o aluno a um consumidor de respostas prontas”, diz Sara Hughes.

Para Paulo Blikstein, professor livre-docente da Columbia University (EUA), as ferramentas devem ser usadas para auxiliar no aprendizado e não para assumir o papel de fazer trabalhos e tarefas para o estudante. “A escola pode criar um projeto sofisticado de robótica que não foi inteiramente feito pela IA, mas pelas crianças com o auxílio dessas ferramentas”, exemplifica.

Evitar que trabalhos ou lições de casa sejam fruto exclusivo de respostas geradas por IA é um desafio para os professores, mas, como diz Alexandre Marcondes, diretor de Tecnologia e Inovação do Porto Seguro, não chega a ser uma grande novidade: “Sempre houve tentativas de burlar ou colar, o que reflete muito mais o comportamento do estudante do que a tecnologia em si”. Nesses casos, segundo ele, os professores dialogam com os alunos, mostrando que a IA pode ser uma aliada no processo criativo, mas não deve substituir o raciocínio e a autoria. Também são promovidas atividades específicas de letramento digital e ética.

“Sempre houve tentativas de burlar trabalhos ou colar em provas, isso reflete mais o comportamento do estudante do que a tecnologia”
Alexandre Marcondes, diretor de Tecnologia e Inovação do Porto Seguro

No Colégio Farroupilha, a assessora pedagógica Marília Dal Moro Bing conta que há relatos de professores que perceberam, pelo estilo, alunos que usaram IA para escrever resumos e projetos. A orientação da escola também é chamar o estudante para conversar. “É preciso que o aluno reconheça que esse é um problema ético. Essa conversa é parte do processo educativo”, conclui Marília.

Foto: Getty Images

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