ENSINO HÍBRIDO

Cursos presenciais não serão mais os mesmos

O uso da tecnologia para personalizar o aprendizado nas faculdades não é mais exclusividade dos cursos a distância

Por Isabela Giordan

19 de outubro de 2021

A pandemia de covid-19 trouxe adaptações na vida dos universitários que poderão resultar em mudanças duradouras na educação brasileira. Uma delas é a discussão sobre a implementação do modelo de ensino híbrido, que busca utilizar recursos digitais para otimizar e personalizar o aprendizado em sala de aula.

Algumas instituições de ensino superior apresentam graduações que seriam supostamente de ensino híbrido ao se referir a cursos que têm parte das disciplinas oferecida na modalidade presencial e parte a distância, o que o Ministério da Educação (MEC) permite (veja detalhes da legislação no quadro abaixo). Esse tipo de curso, que mescla modalidades diferentes na grade curricular, também costuma ser chamado de “semipresencial”.

Mas quando especialistas em educação debatem o ensino híbrido, eles estão se referindo a um modelo educacional no qual os recursos tecnológicos possam melhorar o aprendizado, não importando se a modalidade é presencial ou a distância. “Na verdade, o ensino híbrido integra a tecnologia digital e a aprendizagem dentro das instituições visando à personalização do ensino”, explica Fernando Trevisani, consultor pedagógico e especialista em metodologias ativas. Mais do que uma modalidade, ele é uma metodologia de aprendizagem, que busca derrubar as barreiras entre o presencial e o virtual. “O crescimento desses cursos [de ensino híbrido] é superimportante na medida em que os professores consigam detectar as dúvidas e os dados prévios de aprendizado dos alunos, tornando os encontros presenciais momentos fundamentais e superpotentes para aprendizagem”, acrescenta Trevisani.

Para Sólon Caldas, diretor executivo da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), essa metodologia ainda permitirá que os estudantes desenvolvam outras aptidões que serão uma vantagem no futuro: “O ensino híbrido exigirá que os professores adaptem a metodologia de ensino e que os estudantes desenvolvam habilidades como proatividade e autonomia, aprimorando a capacidade de trabalhar em equipe e solucionar problemas, soft skills que estão sendo apreciadas pelo mercado de trabalho”.

Ao se preparar para o retorno das aulas presenciais, a Universidade Veiga de Almeida (UVA), no Rio de Janeiro, projetou o câmpus Botafogo já visando às adaptações previstas pelo ensino híbrido. “Nós estamos mudando toda a nossa estrutura, inclusive física, para contemplar novos espaços, longe de serem apenas uma sala de aula, mas para que exista um mix de laboratórios dentro desse espaço de aprendizado”, conta a reitora da instituição, Beatriz Balena.

Entretanto, apesar de ser uma metodologia com potencial de melhorar a formação dos novos universitários, o ensino híbrido, quando mal implementado, também pode permitir brechas para a perda de qualidade no ensino, principalmente quando não houver garantia de que os estudantes terão acesso aos recursos digitais tão necessários nesse tipo de aprendizagem. “O maior perigo que a gente tem nessa pandemia é de que as instituições coloquem o ensino a distância com o nome de ensino híbrido”, aponta Catarina de Almeida Santos, dirigente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. “O que o Ministério da Educação precisaria fazer [para evitar essa situação] é ter regras mais sérias e mais rígidas no sentido de fazer um maior acompanhamento e avaliação para garantir o direito de qualidade de educação para todos os estudantes”, sugere.

Para garantir a aplicação do ensino híbrido de forma adequada, a Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, criou o Grupo de Trabalho sobre Educação Híbrida. “O hibridismo pode ser vivenciado dentro de uma sala de aula 100% presencial. Trata-se muito mais de uma concepção de educação mais personalizada e menos massificada, que é mediada por tecnologias. Como, quais e em quantas modalidades seguiremos fazem parte dos resultados dessas discussões que estão em curso na universidade e da avaliação de sua pertinência para cada curso”, conta Janette Brunstein, pró-reitora de Graduação do Mackenzie.

Para aqueles que desejam ingressar em um curso de graduação com ensino híbrido, a indicação dos dois especialistas é buscar faculdades que invistam na formação dos professores, que possuam um quadro de docentes preparados para atender às demandas de cada aluno e tenham os materiais necessários. “Para oferecer um ensino híbrido de qualidade, é preciso muita tecnologia e isso significa ter design instrucional, equipe pedagógica e times multiprofissionais pensando nisso. Eu espero que a tendência do híbrido seja no sentido de favorecer a qualidade da educação e não de precarizar o ensino”, ressalta a dirigente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

 

Laboratórios virtuais ganham cada vez mais espaço

Com o avanço das tecnologias voltadas para a educação, novas oportunidades surgiram para assegurar que o ensino, seja híbrido ou remoto, não fosse prejudicado pela falta de encontros presenciais. Além das ferramentas mais conhecidas entre os estudantes como Google Classroom, Microsoft Team e Moodle, foi necessário que as instituições investissem em inovações.

No curso de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por exemplo, além da reorganização do conteúdo acadêmico, são realizadas atividades de simulação realística para a complementação do ensino. “A gestão do curso fez inquérito junto aos alunos para avaliação, e a colaboração discente foi de suma importância para a adequação do material pedagógico. Com isso, foram inseridas atividades práticas remotas, como uso de simulação virtual, webinários de clínica, teleconsulta, vídeos de exame físico, atlas virtuais de anatomia e histologia, entre outros”, lista Joana Fróes Bragança Bastos, coordenadora do curso.

Em outras faculdades, o uso de laboratórios virtuais, mesmo para cursos da área da saúde, foi a opção escolhida para garantir o aprendizado prático. Para dar conta da demanda, a Veiga de Almeida utilizou esse tipo de laboratório, além de realizar atividades com realidade aumentada. A Algetec, fabricante brasileira de laboratórios físicos e virtuais, notou o crescimento de 1.868% dos acessos à sua plataforma online entre março de 2020 e abril de 2021. Entre as universidades que adotaram esse tipo de laboratório, também estão a Universidade Paranaense (Unipar), o Centro Universitário Sumaré e a Uniasselvi. “Por mais que pedagogicamente o recurso fosse aplicável a qualquer modalidade de ensino, as demandas eram provenientes do ensino a distância. Com o início da pandemia, os cursos presenciais passaram para o remoto emergencial e, com isso, tivemos um aumento substancial de demanda em cursos presenciais. As instituições passaram a perceber que o recurso independe da modalidade de ensino, uma vez que traz uma experiência digital de muita aprendizagem”, conta Vinicius Dias, CEO da Algetec.

Além das tecnologias de inovação, o momento também fez com que as faculdades investissem na formação dos professores para prepará-los para essa nova realidade. “Iniciamos um contínuo investimento na formação de professores, que lhes desse apoio e segurança para conduzir o processo de aprendizagem com a mesma qualidade e excelência do ensino presencial e investimos, constantemente, em capacitação tecnológica e em encontros formativos e trocas de experiências sobre a docência nesse momento”, relata Janette Brunstein, pró-reitora de Graduação do Mackenzie.

 

Portaria do MEC abriu espaço para os cursos semipresenciais, mas não regulamenta o ensino híbrido

Uma portaria do Ministério da Educação (MEC) no final de 2019 (2.117/2019) atualizou as regras que permitem às instituições de ensino superior oferecer parte da carga horária de um curso presencial na modalidade a distância. O limite que até então era de 20% da carga horária passou para 40%. Ou seja, quase a metade da carga horária das graduações presenciais passou a poder ser dada a distância – com exceção dos cursos de Medicina.

Essa mudança na regulamentação impulsionou o crescimento dos cursos chamados de “semipresenciais”.

O que alguns especialistas e entidades do setor debatem agora é a necessidade de uma definição legal também para os cursos que oferecem a metodologia de aprendizagem do ensino híbrido. Essa discussão está sendo impulsionada pela Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed) e outras associações do ensino superior que buscam levar alguns parâmetros para que a regulamentação seja realizada pelo Conselho Nacional da Educação (CNE). Para Carlos Fernando Araújo Júnior, diretor de Relações Nacionais da Abed, a regulamentação do ensino híbrido vai além da necessidade de fiscalização da oferta: “Há questões relativas ao direito do consumidor que poderão dificultar a liberdade das instituições em elaborarem modelos alternativos de cursos superiores. Mas entendemos que o MEC ou o CNE devem se debruçar sobre questões mais simples: o que é ensino presencial? Uma aula síncrona, por meio de webconferência, pode ser considerada uma atividade presencial? Uma aula assíncrona seria considerada a distância? São questões aparentemente simples, mas que têm grandes implicações”.

Sólon Caldas, diretor executivo da Abmes, que também apoia a regulamentação do hibridismo, acredita que essa é, consequentemente, a próxima etapa da portaria que permitiu o aumento das aulas mediadas por tecnologias: “O próximo passo será a quebra da divisão dos cursos presenciais e a distância que há na regulamentação. O foco não será mais o formato na entrega e, sim, a qualidade de ensino e a experiência dos alunos”.

Para os especialistas em educação Catarina Almeida dos Santos e Fernando Trevisani, embora exista a necessidade de regulamentação, seja para apontar definições ou garantir a qualidade, o ensino híbrido enquanto metodologia de aprendizado pode começar a ser implementado apenas com a mudança da linha de raciocínio. “O que a gente tem que fazer é ressignificar. Será que eu preciso de fato chamar um monte de adultos e colocá-los numa sala enfileirada individualmente para fazer as avaliações ou eu posso tratá-los como adultos independentes e discutir com eles processos de aprendizagem que façam diferença na construção dos conceitos e aproveitar os momentos presenciais de outra maneira? Percebe? É uma mudança mais de cultura do que de regulamentação”, conclui Trevisani.

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