Um desafio inesperado para o Butantan

A pandemia levou o centenário Instituto paulista ao epicentro das atenções nacionais

Dimas Tadeu Covas, médico e diretor do Instituto Butantan, em São Paulo

Ao assumir a gestão do Instituto Butantan, no início de 2017, o médico e pesquisador Dimas Tadeu Covas certamente não imaginava o protagonismo que alcançaria no noticiário neste ano pandêmico de 2020. “Eu me sinto muito preparado para o desafio que estou enfrentando”, afirma o médico em entrevista ao Estadão realizada na segunda-feira (14). “É um desafio enorme, mas que não me traz nenhum tipo de temor, a não ser o de não conseguir enfrentá-lo por motivo de saúde ou alguma outra razão.”

Aos 64 anos, Covas tem graduação, mestrado e doutorado em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP), instituição da qual tornou-se professor. Especializado em hematologia, ciência que estuda o sangue, ele desenvolveu pesquisas sobre biologia molecular e células-tronco. O convite para assumir o Butantan veio num momento conturbado da instituição, que estava sob suspeita de irregularidades financeiras e administrativas.

A segunda colocação na categoria Saúde do Estadão Empresas Mais 2020 – a vencedora foi a Rede D’Or São Luiz – demonstra que a instituição encontrou um bom equilíbrio entre porte e rentabilidade. O tipo de equilíbrio exigido de Covas, agora, é outro: fazer o máximo para superar turbulências políticas e contribuir para o acesso da população brasileira à CoronaVac, a vacina contra a covid-19 produzida pelo Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac.

“O Butantan buscará cada vez mais a sua integração internacional. Temos o planejamento de novas fábricas, que aumentarão o nosso portfolio”
Dimas Covas, diretor do Butantan

Que aspectos o senhor destacaria da sua gestão no Butantan, iniciada em 2017?
Chegamos ao Instituto em meio a uma crise institucional, cuja principal característica era a falta de identidade do Butantan. Era uma instituição centenária, com multiplicidade de ações, mas que não tinha uma identidade claramente definida. Não sabia se era um instituto de pesquisa, se era uma indústria, se era uma fábrica, se era uma unidade de ensino ou de cultura. O principal desafio foi definir essa identidade.

O Instituto Butantan é um produtor de biofarmacêuticos e é nessa área que ele tem que se aperfeiçoar. A pesquisa, o desenvolvimento, o licenciamento são acessórios a essa atividade principal. Queremos ser um dos maiores produtores de vacinas do mundo e estamos trabalhando fortemente nesse sentido, tanto com as vacinas que já existem quanto com as novas vacinas, como essa que estamos desenvolvendo para a covid-19.

 

Quais as perspectivas para o Butantan na década que está começando?

O Butantan buscará cada vez mais a sua integração internacional. Num primeiro momento, com as vacinas que já tem, como a da influenza, da qual é o maior produtor do Hemisfério Sul e pretende ampliar para o Hemisfério Norte. Outro exemplo é a vacina da dengue [ainda em desenvolvimento], em que temos um acordo com a farmacêutica norte-americana Merck Sharp & Dohme para torná-la mundial, com distribuição em todos os países.

Temos o planejamento de novas fábricas, que aumentarão o nosso portfólio. Entraremos em outras áreas, como a produção de anticorpos monoclonais. Temos uma fábrica pronta para isso, o que permitirá brevemente a disponibilização de produtos de alta tecnologia, como os produtos monoclonais contra o câncer e com aplicação também na terapia celular avançada.

Em 2019 fizemos grandes investimentos em infraestrutura. Praticamente construímos duas novas fábricas. Em 2020 esse processo de modernização do nosso parque fabril continuou, no sentido de apontar para um futuro em que o Butantan possa ser, de fato, um dos players mundiais na área de vacinas e de soros.

 

Quais são as fontes de renda do Instituto Butantan?

Todas as atividades do Instituto são provenientes de ressarcimento do Ministério da Saúde. O Butantan tem desde muitas décadas essa ligação com o Ministério da Saúde, e todos os produtos que neste momento o Butantan produz são remetidos ao Ministério, que faz o seu ressarcimento. Portanto, a fonte de receita principal é o Ministério da Saúde.

Outros aportes decorrem de licenciamento de patentes ou licenciamento de produtos, como aconteceu no caso da vacina da dengue. Há também projetos de pesquisa relacionados ao desenvolvimento de novos produtos e de novas plataformas, além de eventuais doações. Recebemos muitas doações para a construção da nova fábrica.

 

O senhor acredita que a ciência brasileira sairá fortalecida da pandemia?

O desafio deste momento tem sido reforçado, no mundo todo, pelo papel que a ciência desempenhou e que vem desempenhando no desenvolvimento de novos tratamentos e de novas pesquisas. As instituições brasileiras que atuam nessa área estão mostrando o seu valor. O Butantan, como instituição de primeira linha nessa área, tem dado sua contribuição e sairá dessa pandemia mais uma vez como exemplo para o país e para o mundo.

 

Com uma longa trajetória como pesquisador e gestor, o senhor imaginou em algum momento que estaria numa posição que desperta tanto interesse público como nas circunstâncias atuais?

É uma situação de crise, que exige que as pessoas produzam o melhor que elas têm para tentar trabalhar e debelar essa crise. É o que tenho feito: usado toda a minha experiência acumulada, de gestor, de cientista, de desenvolvedor de tecnologias, que são experiências muito adequadas para o atual momento.

Então eu entendo esse desafio como um desafio enorme, mas que não me traz nenhum tipo de temor, a não ser o de não conseguir enfrentá-lo por motivo de saúde ou alguma outra razão. Eu me sinto muito preparado e tenho trabalhado incansavelmente para ajudar o nosso país, o nosso estado, neste momento tão crítico da vida nacional.

 

Como está o sono?

O sono mudou totalmente durante a pandemia. O que posso dizer é que durmo muito pouco e durmo muito mal. Mas isso não impede que eu trabalhe muito e incansavelmente. O que me motiva é a situação da crise do momento e o quanto eu posso contribuir para superá-la.

 

Como um cientista lida com os aspectos políticos em torno das discussões num momento tão delicado como este? É preciso ser tão político quanto os políticos? Aliás, disputar cargos eletivos é algo que está no seu horizonte?

De forma alguma. Eu não sou político e não tenho pretensões políticas. Tenho algumas qualidades que até não são adaptadas ao mundo político. Sou uma pessoa muito sincera, que fala o que pensa com uma facilidade muito grande, e muitas vezes esse não é o melhor cenário para os políticos de carreira. Participo da agenda política como um gestor de saúde pública, e nesse sentido é que tenho emitido tanto as opiniões pessoais como as relacionadas ao Instituto Butantan.

 

Depois do IPO, Rede D’Or mira expansão

 

A Rede D’Or, primeira colocada do Setor Saúde do Empresa Mais 2020, continua com os planos de expansão da rede, apesar das dificuldades impostas pela crise sanitária. A empresa acaba de abrir com sucesso o capital na bolsa de valores de São Paulo.

O reforço no caixa decorrente do IPO, ao redor de R$ 11,4 bilhões, deverá ser em grande parte aplicado na ampliação da rede, tanto por aquisições quanto pela construção de novas unidades, além da expansão das estruturas já existentes – a exemplo do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, fundado em 2010, dedicado à inovação, à pesquisa clínica e ao ensino na área de saúde.

Os investimentos em tecnologia incluem o uso de robôs, em 16 hospitais da rede, para a realização de cirurgias minimamente invasivas em áreas como urologia, ginecologia e bariátrica. A rede tem se destacado também pelas boas práticas de sustentabilidade.

“Estamos muito felizes e honrados com o primeiro lugar no setor. Gostaria de dedicar essa conquista à nossa equipe, tanto a assistencial quando a de apoio. Sem cada um desses profissionais não seria possível chegar aonde estamos”, disse Rodrigo Gavina, vice-presidente de Operações da Rede D’Or, durante a cerimônia de premiação.