As inovações são muitas, mas a aplicabilidade parece estar limitada e sem adesão do grande público. Por quê? Como transformar essa realidade? De quem é a tarefa? Essas são questões para John Nosta, especialista em saúde digital, empoderamento do paciente e defensor da imperatividade da telemedicina e inteligência artificial na prática médica. Ele esteve no País nesta terça-feira, 2, a convite da UnitedHealth Group Brasil, grupo controlador da Amil e do grupo médico-hospitalar Americas Serviços Médicos. Após falar por mais de uma hora com os colaboradores da empresa, Nosta concedeu uma entrevista exclusiva para o Media Lab Estadão no prédio da UnitedHealth, na zona sul de São Paulo.

 

Alguns especialistas acreditam que a medicina ainda não aderiu de fato à tecnologia. Qual a sua opinião?
Médicos e pacientes têm desejos em comum: o mesmo produto, porém numa versão melhor. Um remédio que resolva a mesma doença, mas que seja mais ativo ou mais preciso. As pessoas abraçam isso.  Mas a tecnologia muda a estrutura por completo. É como um carro: você quer o melhor, mais rápido, de melhor direção. Mas quando aparece o modelo com essas características, porém que dispensa motorista, você vai comprar e abrir mão do seu? Provavelmente não.

Um dos fatores que ainda limitam a aderência da tecnologia na prática médica é a dinâmica geracional, em que médicos mais velhos se negam a mudar e alegam gastar mais tempo passando informações dos pacientes para o computador do que com os próprios pacientes. Já a geração de médicos que cresceram com smartphones tende a abraçar a tecnologia de uma maneira interessante. Muitos profissionais veem a tecnologia como parte do problema. Mas médicos que cresceram com tecnologia, e hoje têm entre 20 e 30 anos, têm um olhar bem otimista para a medicina.

Quais os desafios para implantar a tecnologia de forma mais assertiva na medicina?
A medicina não tem apenas um aspecto, e sua essência está mudando fundamentalmente. Há 20, 30 anos, havia uma relação de controle: o médico dava ao paciente um remédio. Hoje, o paciente vai a uma médica – muitas vezes – e conversa sobre as possibilidades de tratamento. O poder do consumidor no seu cuidador é muito importante.

Existe uma hierarquia muito grande na medicina. Quase que na mesma linha do militarismo. Há o ajudante o médico, o interno, o residente, os estudantes, o médico. E essas tradições e hábitos são difíceis de mudar.

Há duas frentes de desenvolvimento de tecnologia na medicina: o de aplicativos e big data e o de exames e diagnósticos. Que caminho devemos seguir e investir?

Os aspectos mais importantes da mudança propiciada pela tecnologia não estão muito associados ao uso de ferramentas ou aplicativos. Acredito na tecnologia como big data, analytics e inteligência artificial.  Isso porque esses últimos estão transformando a dinâmica do cuidado. Hoje esperamos um homem ter ataque cardíaco para definir o que faremos. Isso deve mudar e seremos mais proativos do que reativos. E na medida em que se torna mais proativo, fica mais fácil, mais prático e também mais econômico.

Mas como usar a tecnologia? Como conseguir informações?
A inovação não está na mão dos pacientes. Não devemos dar a eles mais ferramentas, mas sim mais informação. O acesso a big data se tornará mais “passivo” e isso propiciará novas formas de entender os dados e conectá-los sob os aspectos da vida, atividade e fisiologia. Esse compilado de informações conduzirá ao bem-estar.

Você alega que o Brasil é um dos países mais conectados, e isso favorece o uso de tecnologia. Como integrar tecnologia, conexão e sociedade? É uma tarefa dos governos, das empresas ou dos cidadãos?
Acredito que o governo precisa ouvir a indústrias, que precisam ouvir os pacientes, que precisam falar com os governos. É a mesma dinâmica da transição do modelo de medicina de controle para a medicina de colaboração. Em tecnologia, há uma palavra chamada ‘intractaility’, que se refere a habilidade de um computador conversar com outro. No campo da medicina, como o sistema de saúde conversa com o hospital? Qual a habilidade de organizações, sociedade e governos se conectarem e trocarem ideias?

É aí que está a mágica! Muita da tecnologia já existe, e o interessante da inovação é que ela não se trata de encontrar uma nova ideia, mas de implementar as já existentes.

Em que áreas da medicina a inteligência artificial pode ser mais eficiente?
Em quase todas. Aprendemos nas escolas de medicina que a história e o aspecto físico são partes muito importantes do cuidado, e a inteligência artificial pode ajudar na escuta, no tom de voz do paciente e até em aspectos bastante fundamentais do tratamento. Outra área é a de exames por imagem, que podem ser analisados por inteligência artificial gerada a partir de conclusões, análises e estudos dos melhores médicos do mundo inteiro. E não só do Brasil ou da América do Sul. A inteligência artificial propicia que pessoas em qualquer lugar do mundo possam ter a melhor interpretação do exame e diagnóstico.

Isso é aplicável em grande-escala?

Em absoluto. Em vilas locais e grandes cidades. Essa é a mágica da tecnologia: elimina distâncias. Você pode não ter acesso físico a um bom médico, mas tem acesso a seu smartphone, e por meio dele se conecta com qualquer médico e especialista. E toda essa estrutura não está mais nas cidades, está na nuvem. O sistema está mudando em seus aspectos mais fundamentais, e isso é escalável e também mais econômico. Está acontecendo uma mudança na forma como se pratica medicina e faz a gestão de cuidados.

Já está acontecendo?

Sim! E em breve perguntaremos “o que o computador disse” após o exame. Ou talvez perguntemos “o que o médico disse, e qual a opinião do computador sobre o exame?”. A capacidade humana de compreender todos os conhecimentos e informações geradas diariamente em todo o mundo é limitada. É por isso que a inteligência artificial é imperativa. O ser humano é obsoleto.

 

 

continuar lendo