Das muitas maneiras de contar a história da internet, a melhor é a briga conceitual entre quem defende uma rede aberta e quem prefere uma que seja fechada. A internet acadêmica e militar nasceu aberta, na virada para os anos 1970, mas quando os primeiros consumidores ligaram suas máquinas à rede eles o fizeram em sistemas pagos, que ofereciam serviços e não permitiam navegar para fora. Nomes como America Online ou Compuserve já estão há muito esquecidos – a partir de 1995, foi na web aberta que todos nós entramos e ficamos, por dez anos ou mais. A atual crise do Facebook, porém, é outro capítulo dessa batalha.

Na última década, foi dentro de uma rede fechada (entre duas) que boa parte de nós tocou a vida digital: a rede móvel da Apple e seus apps rigorosamente selecionados e a do Facebook, onde convivemos. Na história, que segue cíclica, talvez seja novamente tempo de voltar à internet aberta, mas é fundamental compreender o que está em jogo. Parece apenas uma briga tecnológica. Seu resultado, no entanto, afeta diretamente a democracia.

Numa rede aberta, qualquer um vai e pendura seu servidor, encaixa o aplicativo que fez ou publica o que lhe dá na telha. É um mercado de ideias de todo livre, não há poder que o regule, e nós, usuários, caminhamos soltos pela selva. Com a febre dos blogs, a web aberta viveu seus últimos dias antes de entrarmos na era social. Há alguns preços para tanta liberdade. Um deles é cobrado em segurança: um app pode ser um vírus disfarçado; nunca sabemos realmente qual a identidade daquele com quem conversamos; as coisas são difíceis de achar. Por natureza, a web aberta é fragmentada, atrapalhada e desordenada – e fica difícil criar negócios que sustentem tanta produção em cima dela.

Quando o iPhone e o Facebook surgiram, quase ao mesmo tempo, esses problemas de certa forma foram resolvidos. Fechado, o smartphone da Apple oferecia em troca um modelo de negócios. Compra de aplicativos, assinaturas. A indústria fonográfica tornou-se novamente rentável. O Facebook, por sua vez, mostrou-se atraente porque dava para encontrar os amigos perdidos há muito e porque a identidade das pessoas é fácil de checar. O Facebook ofereceu segurança. E a segurança derreteu, perdida pela ilusão do algoritmo.

O Facebook é vítima de seu próprio sucesso. Ao criar uma rede fechada na qual todos estão, são fáceis de localizar e atingir, a ferramenta foi usada para manipulação eleitoral. E, ao que tudo indica, misturando ciência social de ponta, estatística e os algoritmos da própria plataforma, um grupo de consultores ingleses foi capaz de interferir no plebiscito do Brexit, no Reino Unido, e depois na eleição presidencial dos Estados Unidos. Pegando de surpresa o alto-comando da rede social.

Entre 2018 e 19, União Europeia e EUA vão regulamentar o uso de dados pelas plataformas digitais. Dificilmente uma rede com mais de dois bilhões de usuários vai acabar, mas períodos de alto poder em empresas de tecnologia foram sempre sucedidos por épocas de estabilidade discreta. Hoje, a internet é o Facebook. Em 2020, quem o dirá?

Isso dependerá, em essência, dos usuários. Quando a ficha cair, vamos perceber que o uso maciço de nossas próprias informações está sendo feito contra nós, eleitoralmente e enquanto consumidores. Numa democracia, é fundamental que a informação circule livremente, e não intermediada por um algoritmo que pode ser manipulado. Voltaremos lentamente a um modelo aberto muito diferente daquele que conhecemos na virada do século. O motivo: blockchain.

Esse sistema, criado para embasar a criptomoeda bitcoin, pode revolucionar a rede ao resolver todos os problemas das moedas virtuais, garantir sua autenticidade e contar sua história — todas as carteiras pelas quais passaram. Quando o sistema bancário for baseado em blockchain, não haverá paraísos fiscais. O dinheiro será rastreável mediante ordem judicial. Quando a informação que circula em rede estiver numa plataforma blockchain, vão-se embora as notícias falsas – saberemos quem as criou.

Alternar entre redes abertas e redes fechadas faz sentido. Uma rede aberta foi necessária para que a internet se popularizasse. A fechada possibilitou a realização de negócios e encontros. Quando nos tornamos uma sociedade digital e a internet fechada facilita a manipulação, talvez seja hora de voltarmos a um modelo aberto. Até a virada seguinte.

Em tempo: Mark Zuckerberg, presidente do Facebook, criou um departamento para estudar o sistema blockchain. A novidade é parte da reestruturação histórica que o empreendedor está fazendo em sua rede social.

Pedro Doria

O jornalista Pedro Doria é colunista do Estadão

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