Velho mercado, novos concorrentes

Em um mercado estável, crescimento fica por conta do surgimento de novos concorrentes, principalmente na área de banda larga fixa

O setor de telecomunicações continua em queda. O País fechou o ano de 2017 com 324 milhões de acessos a serviços de telecomunicações, volume 2,3% inferior ao registrado em 2016. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) projeta que, até 2021, os planos de telefonia fixa, móvel e de TV por assinatura seguirão em queda, conforme Relatório Anual da Anatel de 2017. Por outro lado, o único serviço que registrou crescimento e que deve ser ampliado é o de banda larga fixa. Boa parte desse incremento virá não dos tradicionais grandes grupos, mas das chamadas “competitivas”.

De acordo com João Moura, presidente da Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (TelComp), o País conta hoje com mais de mil empresas que oferecem serviços de banda larga fixa em regiões aonde as três grandes (Claro, Vivo e Oi) não chegam. “Atualmente, esse conjunto de empresas tem gerado um crescimento maior do que o de todas as outras grandes em conjunto”, compara, lembrando que essas companhias já representam a terceira força do mercado, devendo ser a segunda já no ano que vem.

O resultado vem do fato de esse conjunto de companhias estar conseguindo oferecer produtos e serviços de boa qualidade e bom preço, ganhando mercado mesmo em um ambiente desfavorável. Segundo Moura, uma rápida análise sobre os três grandes mercados do setor – telefonia fixa e móvel, banda larga e TV por assinatura – mostra que somente a banda larga vem ganhando novos clientes.

Nos outros dois, a tendência é de redução na base de assinantes e, consequentemente, na receita fixa. A tendência, ao contrário do que se pode imaginar, não é fruto somente da crise, mas de mudanças nos hábitos dos consumidores. “Os segmentos de voz e TV por assinatura têm sofrido uma concorrência notável dos aplicativos e serviços de streaming”, afirma Moura, ressaltando também o impacto de um aumento nos impostos ocorrido em 2017, quando vários Estados aumentaram a alíquota do ICMS.

De todo modo, é justamente o sucesso dos aplicativos entre os usuários que tem impulsionado o mercado de banda larga fixa. “As pessoas querem ter o serviço por causa dos aplicativos e pela disseminação do Wi-Fi, fundamental para se contar com essa modalidade”, comenta.

Futuro incerto

Mas Moura ressalva que o crescimento da banda larga não é suficiente para sustentar todo o setor. Ele lembra que, no geral, a falta de demanda tem levado à queda nas receitas e que esse é um impeditivo para futuros investimentos. Para que o segmento volte aos trilhos, há uma forte expectativa em torno da aprovação do Projeto de Lei Complementar (PLC) 79, que altera e corrige alguns pontos da Lei das Telecomunicações.

“Pela lei em vigor atualmente, as operadoras concessionárias são obrigadas a manter serviços, compromissos e obrigações muito onerosas para uma modalidade que não tem clientes. Ninguém mais quer telefone fixo ou orelhão na rua, mas as empresas ainda são obrigadas a manter obrigações em relação a esses itens”, diz.

Por causa desses fatores, Moura lembra que 2017 foi o ano da desaceleração e que 2018 tem sido o ano da acomodação, ainda que em ritmo lento. A expectativa, segundo o executivo, é de que 2019, com a aprovação do PLC 79, chegue com a retomada dos investimentos, que neste momento são mais do que necessários em virtude das mudanças tecnológicas, como 5G, M2M (machine-to-machine) e IoT (internet das coisas), todas dependentes de serviços de telecomunicações.

Setor vive forte expectativa em torno da aprovação do PLC 79, que altera alguns pontos da atual Lei das Telecomunicações

AMPLIAÇÃO: Rede móvel da Vivo chega a 2.600 municípios brasileiros

Menos telefone e mais internet

Ao mesmo tempo que reduz o uso da telefonia tradicional, o consumidor brasileiro demanda mais e mais mobilidade das empresas do setor

Se de um lado o brasileiro vem utilizando cada vez menos o telefone, de outro vem fazendo uso cada vez maior da internet, seja em casa ou em trânsito. O cenário, mesmo fazendo cair o número de telefones fixos no País, tem aumentado a receita das empresas de telecomunicações com a oferta de banda larga fixa e internet móvel. É o caso da Vivo, primeira colocada entre as empresas do setor, que no ano passado atingiu um market share de 31,7% em telefonia móvel, com uma receita líquida de R$ 26,5 bilhões, 3,6% mais que em 2016. Para o vice-presidente de B2C da Vivo, Marcio Fabbris, o crescimento do uso de dados, serviços digitais e banda larga fixa, combinado com a eficiência em custos e investimentos, resultou no forte incremento do Ebitda e na geração de caixa da companhia em 2017.

Banda larga e internet móvel puxam para cima as receitas das empresas de telecomunicações

“Ampliamos nossa rede móvel de quarta geração para 2.084 novas cidades, o que elevou a presença da rede da companhia para 2.600 municípios em dezembro e nos permitiu oferecer aos nossos clientes o melhor tráfego de dados”, afirma. Além disso, o crescimento da banda larga fixa contribuiu para o aumento da receita. No ano passado, a empresa registrou um avanço significativo na base de ultrabanda larga, por meio da migração de clientes para velocidades mais altas e da expansão de rede de fibra óptica para novas cidades. “Nossos investimentos – cerca de R$ 8 bilhões – foram destinados principalmente à ampliação da rede móvel de quarta geração, cobrindo 84,5% da população brasileira”, afirma Fabbris. Além disso, os recursos foram direcionados à expansão de fibra óptica, que recebeu o equivalente a 18,5% da receita operacional líquida no ano.

A Claro, segunda colocada no setor, também apostou em novas ofertas. O CEO da empresa, Paulo Cesar Teixeira, lembra que a Claro foi pioneira na oferta de ligações ilimitadas para qualquer operadora. “Inovamos também com o lançamento dos serviços Passaporte Américas e Passaporte Europa, que possibilitam ao cliente usar seu plano móvel pós-pago contratado também no exterior, como se estivesse no Brasil, com benefício de ligações ilimitadas e utilização de seu pacote de dados em 18 países da América e em 48 da Europa”, afirma.

Também em 2017, a Claro anunciou a chegada do 4.5G ao País e expandiu sua área de cobertura para mais de 150 cidades. “Com esse conjunto de ações, a empresa agora lidera o crescimento e aumenta sua participação no segmento mais rentável do mercado: o pós-pago”, revela.

Já a TIM, terceira colocada no segmento, conquistou em 2017 um lucro líquido acumulado de R$ 1,2 bilhão, com 36,6% de margem Ebitda, sua maior marca em oito anos. “Fechamos o ano com 17,8 milhões de usuários no segmento pós-pago, representando mais de 30% do total de clientes. Isso significa um aumento de 19,6% na comparação com o ano anterior”, comemora Leonardo Capdeville, vice-presidente de tecnologia da TIM Brasil.

O executivo reforça que a TIM acaba de completar 20 anos de operação no Brasil com resultados bastante consistentes. “Um dos principais fatores que podemos considerar é a consolidação da liderança da cobertura do 4G, com fortes investimentos em infraestrutura de rede, passando de 3 mil cidades no ano passado”, diz Capdeville.

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